Crítica: A Pequena Sereia - "Pode perder um pouco da mágica do desenho, mas tem seu encanto"
- Mateus Coripio
- 26 de mai. de 2023
- 6 min de leitura
Atualizado: 27 de mai. de 2023

Estreou na quinta-feira, 25 de março, o tão esperado e comentado remake live-action do clássico da Disney de 1989, A Pequena Sereia.
A trama segue a mesma da animação, onde Ariel, uma jovem sereia, sonha em subir à superfície para conhecer mais sobre os humanos e seus costumes. Após resgatar um jovem príncipe de um naufrágio, a garota faz um acordo com uma bruxa do mar para ir atrás de seu sonho, mas com um preço, se falhar em fazer o sucessor ao trono se apaixonar por ela em três dias, a sua alma pertencerá à feiticeira para sempre.

Esta nova leva de recriações dos longas animados tão famosos da empresa do Mickey Mouse vêm gerando um grande barulho, muitas vezes negativo, por conta de um grande terror de estragar as memórias afetivas dos amantes destes clássicos, e A Pequena Sereia foi o assombro da vez para estes fãs.
Como boa parte desta história se passa no fundo do mar, desde o início da produção, lá no começo de 2021, vinha se especulando como esse mundo subaquático seria transformado em uma versão mais realista para as telonas. A resposta foi o abuso de muito CGI e a grande esperança do resultado ser minimamente bom. Agora em 2023, é possível conferir o produto final desta conta nos cinemas.

Embora seja muito difícil dizer que os efeitos computadorizados desta nova versão do conto de Ariel sejam extraordinários, seria errado julgá-los como algo totalmente terrível. Existem certas cenas onde se torna visível o erro de se trabalhar com estas técnicas em um tempo tão curto de pós-produção, mas em contrapartida temos algumas outras bem finalizadas e melhores trabalhadas.
Logo no começo do filme, somos apresentados as irmãs da jovem sereia, e de cara já percebemos, não foram os casos dos bons resultados do CGI. Todas parecer ser grandes bonecos 3D flutuantes e deixam uma sensação até estranha no espectador quando se movimentam. É algo bem triste, já que seus visuais em si são tão exuberantes e bonitos.

A fotografia, mesmo sendo muito arrastada e dependente do trabalho dos computadores, tem o seu lado mais belo. Em live-actions, a Disney preza por um olhar mais realista aos clássicos. E aqui, apesar de perder este encanto mais fantasioso do desenho original, acerta em grande parte com um ar mais misterioso de antigas pinturas sobre mitos de sereias. Cenas como o resgate de Eric, o príncipe, e o momento antes de visitar Úrsula, a bruxa do mar, são as que mais refletem esta visão e ajudam a dar um tom ao filme.
E é exatamente este o estilo, assim acredito, que o diretor Rob Marshall tinha em mente. Marshall vêm de laços mais teatrais, aspectos também presentes no filme em pequenas porções, especialmente em números musicais.
É bem perceptível o conceito proposto assim quando o filme começa, abrindo com uma frase do conto original de Hans Christian Andersen, onde se diz: "Mas uma sereia não tem lágrimas, e, portanto, ela sofre muito mais." A produção quis se aproximar mais do visual literário sombrio da história e mesclar isto na base da Disney, adicionado o conceito artístico antigo destes seres marinhos, que aterrorizavam profundamente a mente de marinheiros.

E também é exatamente aí onde o longa prepara sua própria armadilha. Amantes do fantasioso, cheio de cores, filme de 1989, batem com a cara na parede ao encontrar este ar mais escuro e menos vibrante. Porém, mesmo fãs do original, podem se surpreender com a produção tendo esta certa beleza, assim como sua própria visão neste conto.

O grande problema do visual, é ele também tentar ir para o lado oposto, com algumas cenas extremamente coloridas, dando um contraste esquisito com o resto do filme, o qual é mais neutro. 'Aqui no Mar' é uma destas sequências mais vibrantes, que embora seja uma cena até bonita, fica bem no meio deste impasse de opostos.

As sequências musicais tem seus altos e baixos, mas marcam mais pontos positivos. Os destaques ficam com 'Parte do Seu Mundo' e 'Beije a Moça', que são lindas. Algumas canções criadas para esta nova narrativa são facilmente descartáveis e não se destacam dentre as já conhecidas. Quem ficou responsável pelas mudanças na trilha sonora, junto ao compositor do original, Alan Menken, foi o tão conhecido na Broadway, Lin-Manuel Miranda. Lin tem um estilo muito marcante em suas composições, porém aqui, no meio de outras com um estilo totalmente diferente, elas ficaram deslocadas e sem sentido.
Quanto em questões narrativas, quase nada foi alterado do material anterior, foram mais adições. O remake tem quase 1h a mais de duração em comparação a animação, algo meio preocupante para manter a atenção de crianças, público alvo do filme, por tanto tempo, já que elas podem deixar o ritmo do filme mais lento e denso. Mas não diria serem desnecessárias, já que ajudam a construir uma profundidade maior tanto nos relacionamentos, quanto o próprio motivo de Ariel querer subir à superfície.
Em contra partida de certas coisas adicionadas servirem somente para dar um funcionamento melhor para outros elementos, o que vai acabar passando despercebido aos olhos dos pequenos, existem partes positivas das implementações. Como quando Ariel é trazida para o mundo dos humanos, parte de sua maldição é esquecer de precisar beijar o príncipe, algo necessário para não sofrer as consequências permanentes daquele feitiço, então isto acaba dando uma melhora maior ao relacionamento da sereia com o príncipe Eric, desenvolvendo melhor o laço entre eles.

O longa se passa no Caribe de antigamente e alguns aspectos da cultura local são alocados no roteiro, dando uma certa vida para aquela história. As músicas, os figurinos e cenários possuem uma influência caribenha maior e visível.

Halle Bailey interpreta a princesa Ariel, e não podia ter sido uma escolha melhor para interpretar a sereia. Ela é cheia de carisma e um ar que enche esta adaptação de vida, com uma voz linda e poderosa. Bailey está muito feliz e confortável em seu personagem. Com certeza, é o grande ponto alto deste remake.
Melissa McCarthy está na pele da vilã Úrsula, e apesar de ter dado para a bruxa dos mares um ar do teatro musical, não é tão assustadora quanto a da animação, puxando para um lado mais cômico, e no último ato, tem suas ameaças e truques mais suavizados.

Javier Bardem e Noma Dumezweni, vivem Tritão, pai de Ariel, e a Rainha, mãe de Eric. Ambos são grandes atores, porém aqui estão jogados para o canto e não possuem profundidade em seus personagens. São rasos e passam batido, mesmo sendo figuras tão importantes na vida de seus filhos.
Daveed Diggs e Awkwafina dublam Sebastião e Sabichão, respectivamente, e roubam a cena, sendo engraçados como os do original, e possuem mais expressões do que os animais de outra adaptação da Disney, O Rei Leão (2019), alvo de críticas por este motivo. Mas ainda sim, não são tão caricatos e cheios de personalidade como os do clássico animado. Jacob Tremblay também dubla um dos amigos de Ariel, o Linguado, um peixinho, porém também é pouco utilizado em cena e não deixa uma presença marcante.

A Pequena Sereia tem muitas ressalvas, mas é uma nova visão, e voz, para a nova geração da Disney se identificar e, quem sabe, até se apaixonar. Caso você tenha muitas memórias afetivas vindas do original e queira que tudo seja exatamente idêntico, talvez não se sinta tão satisfeito com o olhar trazido pela adaptação, porém ele é apaixonante. O diretor Rob Marshall dá um novo mundo apaixonante para a história, embora poderia ter funcionado muito melhor sem ser um reconto da animação, e sim um mais livre, como Malévola (2014).
Quem é fã da bela moça do fundo dos mares desde pequeno, vale a pena arriscar dando uma chance à produção, e quem sabe você também não seja fisgado pelo charme desta versão e, claro, de Halle Bailey.
Em geral, o novo remake do clássico animado tem seu encanto e mais coração em relação a outros live-actions da empresa, por conta de uma poderosa protagonista e uma nova visão do conto, tendo direito até a cenas bonitas. Porém em comparação ao material original, peca em fazer jus e trazer a sua magia.

A Pequena Sereia (The Little Mermaid, 2023) – dir. Rob Marshall
Nota: ★★★½
Sinopse: Ariel é uma curiosa sereia que deseja experimentar a vida em terra firme e, contra a vontade de seu pai, visita a superfície. Ariel se vê em uma inesperada jornada de autodescoberta ao encontrar um príncipe, uma bruxa do mar e um novo mundo incrível.



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