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Crítica do filme: O Morro dos Ventos Uivantes (2026) - "Até onde é aceitável deturpar o material original para moldar uma história que você não quer verdadeiramente adaptar?"

  • Mateus Coripio
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura
margot robbir caracterizada como catherine earnshaw na nova adaptação de o morro dos vento suivantes

O Morro dos Ventos Uivantes estreia dia 12 de fevereiro nos cinemas brasileiros.


Em pleno século 21, Emerald Fennell, diretora conhecida por seus trabalhos como Saltburn (2023) e Bela Vingança (2020), decide se arriscar na literatura clássica e adaptar, se é que podemos chamar assim, O Morro dos Ventos Uivantes de Emily Brontë


Na história, Catherine Earnshaw (Margot Robbie) é uma garota de uma família humilde que se vê apaixonada por Heathcliff (Jacob Elordi), um rapaz que seu pai trouxe de uma das suas viagens na cidade e que é considerado por todos um garoto sujo e indisciplinado. Ambos possuem uma conexão rebelde, calorosa e conturbada. Os jovens crescem juntos e se tornam ainda mais complicados quando atingem a maioridade, onde a menina se vê ansiosa para conhecer seus novos vizinhos endinheirados, especialmente Edgar Linton, um solteirão que pode lhe proporcionar uma vida de luxo.


margot robbie e jacob elordi como cathy e heatchliff

O que descrevi é, de certa forma, algo que também ocorre no livro, porém Fennell decide seguir no mesmo caminho de uma longa lista de adaptações do romance gótico e ignorar mais da metade do livro para focar no romance entre Cathy e Heathcliff, o problema aqui é que a diretora, a qual também foi roteirista do longa, decide deturpar completamente o texto-base, removendo personagens, tentando miseravelmente construir uma conexão mais profunda entre ambos os protagonistas.


Em seus outros projetos, especialmente Saltburn, o roteiro sempre foi considerado algo bem divisivo por ser um pouco nojento demais para alguns, batido para outros, mas algo sempre foi certo: Emerald gosta de chocar seu público, o que não poderia ser diferente em O Morro dos Ventos Uivantes, mas ao tentar transformar a relação dos dois personagens clássicos, que no material original é tão densa e conturbado, uma paixão quase visceral, algo que não é saudável, e que aqui é puramente sexual, sem dar espaço para essa conexão, você perde completamente o sentido e profundidade dessa história.


Veja por esse ponto: acredito que não existe problema nenhum em querer adicionar um toque sexual para narrativas, afinal o sexo é algo que vem sendo cada vez mais censurado no cinema moderno e está virando até certo tabu, por assim dizer, mas isso perde completamente o sentido quando você tenta construir essa relação apenas nesse quesito e em memórias de infância, quando você não consegue amadurecer seus personagens o suficiente em tela, mas precisa de algo para que eles não consigam soltar as mãos uns dos outros, já que Catherine não consegue sentir o mesmo “amor ardente” na cama com Edgar igual sente com Heathcliff.


cena da nova adaptação de o morro dos ventos uivantes

E para piorar, a própria escalação já é um ponto problemático e para se questionar. Quando foi anunciado que Jacob Elordi, conhecido por Euphoria e Frankenstein, iria viver esse personagem, que no livro é descrito como “cigano” e de “pele escura”, foi um grande alvoroço, e com razão.


No livro, Heathcliff é detestado por todos não por ter aparência de sujo por ter sido retirado das ruas, mas sim por sua pele de tom mais escuro, por ser considerado selvagem pelo seu “modo de falar agressivamente”. Ao trazer Elordi, você basicamente deturpa todo o ponto central da obra de Brontë, o qual foi publicado em 1847 e foi um dos poucos títulos da época que trazia críticas para essa época colonialista, e ainda tira todo o verdadeiro sentido do porque os personagens achavam inaceitável ele ter conseguido ascender financeiramente e todo o ódio que o motivou a conquistar isso, toda a vingança que ele planejou.


E fechando com chave de ouro em toda as questões de problemáticas, Emerald Fennell admitiu que sua adaptação era apenas a versão de como ela havia enxergado a narrativa original quando fez a sua leitura, e admitir que na sua leitura a única coisa que você conseguia enxergar era apenas o romance, o qual você ainda diminuiu para apenas erotismo, é um pouco preocupante. Ainda por cima, a roteirista ainda decide cortar os filhos de ambos da história e todo o seu desenvolvimento, mas acredito que até faz sentido uma vez que essa parte perderia todo o propósito por você remover a questão que Heathcliff não tem um sentido em seu ódio, não quer tomar as terras daquelas pessoas, algo extremamente significativo no livro, que o faz até mesmo utilizar seu próprio filho para um jogo de poder, e assim poder vencer.


margot robbie e jacob elordi como cathy e heatchliff

Para não dizer que o filme é um total fracasso, a fotografia de Linus Sandgren (La La Land, Saltburn) é o que realmente move o projeto totalmente, aquilo que realmente coloca um mínimo de propósito no porque esse longa foi escolhido para ser feito. Junto aos figurinos de Jacqueline Durran, e a direção de arte de Caroline Barclay e Neneh Lucia, eles constroem os campos de Yorkshire em algo voraz para os olhos, é de encantar o quão colorido o cinema pode voltar a ser.


Embora os figurinos e sets possam não fazer sentido historicamente, acredito que nesses quesitos são as únicas partes desculpáveis de não seguirem a época original, pois é algo tão belo e que não causa estranheza, só parece certo, então o espectador vai aceitar pois é mágico para ele, é algo que não vemos sempre em blockbusters. E eu diria até que por mérito desses aspectos técnicos, a produção pode cair mais na graça do público do que cairia se fosse sustentado apenas pelo roteiro.


cena da nova adaptação de o morro dos ventos uivantes

E todo esse anacronismo não para por aí, a trilha sonora original de Charli xcx também é bem sólida, são músicas de estilos bem variados, embora bem modernos, mas casam bem com a história em boa parte do filme. O único certo momento que causa certa estranheza é durante uma montagem onde a personagem de Margot Robbie, a qual está casada com seu novo pretendente, fica desolada pela partida de Elordi e parece ficar presa em um tipo de videoclipe melancólico que traz a gente para fora da atmosfera do filme por duros cinco minutos onde ficamos vendo uma colagem de cenas sem sentido da atriz fazendo carão para a neve.


Quanto aos atores, Margot Robbie e Alison Oliver são as grandes potências do elenco. Robbie traz uma Catherine com trejeitos até que bem fiéis para a personagem original, conseguindo traduzir a teimosia e melancolia da personagem. Já Oliver faz uma Isabella Linton carismática, embora tenha sido pega pela maldição do roteiro que quer chocar e a coloca em cenas que constrangem qualquer espectador.


Em resumo, O Morro dos Ventos Uivantes é mais uma adaptação fracassada do clássico dos anos 1800, onde Emerald Fennell manipula todo o material original para montar sua história de romance bobo e mal desenvolvida, o que mais se parece com um resumo rápido para uma aula de literatura do que uma real tentativa de prestar homenagem à obra de Brontë.



poster da nova adaptação de o morro dos ventos uivantes

"O Morro dos Ventos Uivantes" ("Wuthering Heights", 2026)

Estreia dia 12 de fevereiro nos cinemas

Nota: ★★ / 5


Sinopse: O órfão Heathcliff é acolhido ainda criança pela família Earnshaw e apaixona-se pela pequena Catherine. O afeto, embora correspondido, transforma-se num amor impossível. Tal vínculo devastador é envolto por uma atmosfera sombria e um teor dramático e audaz.




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