Crítica: Beau Tem Medo - "Uma odisseia febril de nossos medos irracionais"
- Mateus Coripio
- 4 de mai. de 2023
- 4 min de leitura

Estreou na quinta-feira, 20 de abril, o novo drama psicológico da A24 de Ari Aster, diretor de Hereditário e Midsommar.
Na trama, Beau é um homem que mora sozinho em um bairro violento, e após eventos impedindo-o de viajar para visitar a mãe acontecerem, precisa descobrir um novo caminho para chegar até seu antigo lar.

Em todos os filmes do diretor, algo que sempre chamou atenção foram os visuais e seus movimentos de câmera misturados com transições, embora este último seja menos presente aqui, os visuais do longa são espetaculares, especialmente no segundo ato.
Os cenários são um belo trabalho da produção de design, que acerta em retratar as emoções e o absurdo da mente do personagem, indo desde um apartamento em um bairro perigoso até um teatro construído por órfãos dentro de uma floresta.

Embora seja, dentre todos as obras em longa-metragem, o filme que mais se distancia desta imagem do diretor com o terror, são perceptíveis alguns traços técnicos dele.
Beau Tem Medo é uma grande jornada filosófica de um homem com fortes memórias assombrosas, e que está indo em direção da fonte de todos estes traumas. E apesar de isto ser claro dentro do trajeto da narrativa, o roteiro várias vezes parece querer dizer muito para algo sem necessidade de um aprofundamento.

O primeiro ato do longa retrata fortemente pensamentos irracionais do protagonista e como eles afetam completamente sua vida. Seus diálogos com terapeuta são bem trabalhados para deixar isto bem na nossa cara, e ao desenrolar deste primeiro capítulo da história, todo aquele mundo bizarro só adiciona nesta conta. Os absurdos da imaginação de Beau servem para o público poder simpatizar com ele, já que são problemas cotidianos comuns, como o medo dos efeitos colaterais de um remédio, o pânico de perder a chave de casa ou esquecer a porta aberta. Também existindo um terror bizarro na cabeça dele de como cada mínima coisa pode se transformar em um desastre, o que no caso do filme, vai mesmo acontecer.

E isto vem de uma infância pesada, repleta de abusos mentais de sua mãe. Tudo ficou preso na mente de Beau, sempre presente e ecoando para relembrá-lo de seu passado conturbado, e trazendo consigo pequenos fragmentos destas cenas vividas por ele.

Conforme o personagem avança em sua trágica aventura, o longa parece lançar o público para outro universo, onde conhecemos Grace e Roger, um casal de sujeitos interpretados por Amy Ryan e Nathan Lane, que estão ótimos em seus papéis. Ambos contribuem para uma suspeita do espectador de algo a mais acontecendo por detrás dos panos. O ambiente parece calmo e tranquilo, mas só falta apenas um pequeno deslize para ir tudo pelos ares.

Ari Aster consegue conduzir o roteiro como se fosse um tiro de uma arma de fogo, porém conforme seguimos o trajeto desta bala, o diretor altera este percurso e faz ela seguir em qualquer direção, até mesmo no sentido contrário, atingindo o público com as coisas mais inesperadas.
O mais insatisfatório na narrativa de Beau Tem Medo, é o excesso de elementos. Algumas peças do quebra-cabeça parecem ser tão complexas, mas tem um significado relativamente simples, porém o longa fica dando voltas infinitas e adicionando mais informações vazias, deixando o espectador confuso e, às vezes, entediado. É algo que o diretor construiu com um prazer próprio, elevando o subjetivismo em um nível acima, embora aquilo nem sempre agrada todos ali, não sendo necessariamente ruim, apesar de ser bem relativo.

Joaquin Phoenix interpreta o protagonista e está impecável no papel. Sua performance é intrigante e cheias de facetas, tornando Beau um personagem que às vezes podemos nos identificar, mas em outras uma pessoa completamente fora de si e perdida, dando até pena por seus problemas inacabáveis.
Patti LuPone interpreta Mona Wasserman, dona de uma das maiores empresas daquele universo. LuPone é aterrorizante em seu papel, com uma personagem dura, que transforma os traumas gerados em seu filho em uma arma para ele mesmo, onde ela é quem aperta o gatilho.

Embora não seja considerado um terror psicológico, não pense que Ari Aster é incapaz de conseguir assombrar os espectadores mesmo assim, apresentando uma história de um homem traumatizado e com memórias perturbadoras, tendo direito a cenas bizarras e de deixar quem está vendo chocado. E ao chegar nos créditos finais, deixa o cinema todo em um estado pensativo, processando todas as informações que acabou de receber.

Em geral, Beau Tem Medo é um forte drama psicológico com boa qualidade de produção, especialmente na direção, porém é desnecessariamente longo e cansativo, mas acerta em aterrorizar o espectador com cenas inesperadas e um grande medo que paira na mente traumatizada do protagonista, sendo este transmitido fortemente ao público.

Beau Tem Medo (Beau Is Afraid, 2023) – dir. Lee Cronin
Nota: ★★★★
Sinopse: Ambientada em um presente alternativo, a trama acompanha Beau Wassermann, um homem extremamente tenso e paranóico que tem uma relação turbulenta com a mãe dominadora, Mona. Quando eventos inesperados acontecem, Beau precisa ir até sua antiga casa mas a viagem acaba sendo dificultada por uma série de acontecimentos imprevisíveis que parecem tentar desviá-lo de sua jornada a qualquer custo. Agora, ele deve enfrentar seus piores - e mais absurdos - medos se quiser chegar ao seu destino.



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